A mudança de framing
Quando comecei na Leve Saúde, há 4 anos, herdei 23 sistemas. Cada um com seu próprio "cliente único". Para descobrir o histórico de uma única pessoa, era preciso bater em 7 desses sistemas. Cada um com SLA diferente, cada um com formato diferente.
O projeto óbvio era construir um data lake e unificar tudo. Foi o que propusemos. Foi o que aprovaram. Foi o que falhou na primeira tentativa.
Falhou porque tratamos como problema de dados. Não é. É problema de confiança.
O que aprendemos depois do primeiro fracasso
Médicos não confiam em dado que não conseguem rastrear até a fonte. Se o sistema diz "última consulta em janeiro", o médico precisa saber: qual sistema gravou isso? Qual profissional registrou? Foi atualizado depois?
Quando o dado chega "limpo" demais para o data lake, o médico desconfia. E volta a usar os 23 sistemas originais.
Na segunda tentativa, mudamos a arquitetura: mantivemos a rastreabilidade até a fonte como cidadão de primeira classe. Cada campo do data lake carrega metadados de origem, timestamp, autor.
Adoção subiu de 18% para 84% em 6 meses.
A regulação como aliada
A LGPD foi tratada por muito tempo como inimiga em saúde. Na nossa operação, virou aliada: o framework de consentimento granular que precisamos implementar para LGPD tornou-se a fundação do data lake. Cada dado tem propósito declarado, validade, revogabilidade.
Não é só compliance. É o que dá ao paciente a sensação de que seus dados são tratados com cuidado — e isso, em saúde, é o produto.
O que ainda não resolvemos
A interoperabilidade entre operadoras. Cada uma tem seu próprio formato. Padrões como FHIR existem, mas a adoção é parcial.
Enquanto isso não evoluir nacionalmente, cada operadora reinventa a roda. Em saúde, isso custa vidas — não no sentido figurado.
SOBRE O AUTOR
Claudio Maffezzolli
CTO @ LEVE SAÚDE
Claudio Maffezzolli é CTO da Leve Saúde, operadora de saúde com mais de 200 mil beneficiários. Tem background em engenharia de plataformas de dados e atuou previamente em SaaS B2B no setor de seguros.