A reunião que não aconteceu
Em 2024, propus ao board um projeto de R$ 80 milhões para reescrever a plataforma central da empresa. Preparei 47 slides. Diagramas de arquitetura, comparativos de fornecedores, análise de risco.
Na reunião, o presidente do conselho me olhou e disse: "Não preciso ver os slides. Me conta o que acontece se a gente não fizer nada."
Naquele momento entendi: arquitetura não se vende em diagramas. Vende-se em consequências.
O que mudou na narrativa
Reformulei a apresentação. Os 47 slides viraram 3 frases:
1. Em 24 meses, a plataforma atual deixa de receber atualizações de segurança do fornecedor. 2. Cada incidente crítico custa, em média, R$ 4 milhões em downtime e multa regulatória. 3. Nos últimos 18 meses, tivemos 6 incidentes desse tipo.
A matemática se vendeu sozinha.
A execução invisível
Reescrevemos a stack inteira em 14 meses. Sem parar um único produto. Como?
- Strangler pattern, módulo por módulo. Nunca um big bang. Cada novo módulo era ligado ao sistema legado por um adaptador, e desligado um a um. - Feature flags em tudo. Cada mudança podia ser revertida em 60 segundos. - Um único time-zero. Pequeno, sênior, com autonomia total para dizer "não" a qualquer pedido fora do escopo. Sem esse filtro, o projeto teria virado um buraco sem fundo.
O preço real
O projeto custou R$ 78 milhões. Dentro do orçado. Mas o custo real foi outro: perdi 4 dos 12 engenheiros sêniores no caminho. Burnout. Conflito de prioridades. Decisões duras sobre quem ficava no time-zero.
Nenhum slide do board mostrou isso. Mas é essa a parte que ninguém te ensina: a arquitetura mais elegante do mundo não resolve o custo humano da migração. Você precisa orçar isso também — em retenção, em sucessão, em saúde mental.
SOBRE O AUTOR
Renan Santos
CIO @ CERTISIGN
Renan Santos é CIO da Certisign, maior autoridade certificadora do Brasil. Tem 22 anos de experiência em arquitetura de sistemas críticos e segurança da informação no setor financeiro e regulado.