A demissão que ninguém entendeu
No trimestre passado, demiti um diretor que todo mundo amava. Tecnicamente bom, querido pelo time, presente em todos os happy hours. Mas tinha parado de crescer. Há dois anos entregava o mesmo nível, com a mesma criatividade, com o mesmo apetite ao risco.
O time não entendeu. Recebi mensagens, alguns pediram reunião. Uma engenheira chegou a chorar na minha sala. "Como você pôde?", ela perguntou.
Não dava para explicar publicamente. Não porque era confidencial — porque a explicação envolve um conceito que executivos seniores entendem e times jovens, ainda não: manter alguém que parou de crescer é uma forma silenciosa de injustiça com quem ainda quer crescer.
A matemática da cadeira
Quando você lidera 800 pessoas, sua decisão sobre uma vaga não afeta uma pessoa — afeta o sistema inteiro. Cada cadeira sênior parada é um teto invisível para 8, 10, 15 pessoas abaixo.
O custo de manter um sênior estagnado não é o salário dele. É o talento que sai porque não vê caminho. É o engajamento que cai porque promoção depende de alguém liberar espaço. É a cultura que se acomoda.
Mas você não pode explicar isso na all-hands. Vai soar frio, calculista. Então você absorve. Sozinho. E segue.
Como eu durmo à noite
Não durmo mal porque tomei a decisão certa. Durmo mal nos dias em que deixei de tomar a decisão por medo de parecer cruel.
A cadeira é solitária — e isso é uma feature, não um bug. Se você não está disposto a ficar sozinho em algumas decisões, você não deveria estar nessa cadeira.
Três regras que aprendi
1. Decida rápido o que é fácil. Pense devagar o que é difícil. Mas uma vez decidido o difícil, execute sem ambiguidade. 2. Nunca terceirize a comunicação da decisão difícil. Quem decide, comunica. Diretor demitido por mim, recebe o aviso de mim. 3. Não busque validação no time depois. Ela vem — ou não vem. Não condicione a próxima decisão a ela.
SOBRE O AUTOR
Reinaldo Sima
CIO @ MRV
Reinaldo Sima é CIO da MRV Engenharia há 8 anos, liderando a maior área de tecnologia do setor de construção civil no Brasil. Conselheiro de inovação em três outras companhias listadas em bolsa.