O telefonema das 22h
Era uma terça-feira de outubro quando recebi a ligação. Do outro lado, o CEO falava baixo, quase um sussurro: "Preciso de uma resposta até quinta. Vamos comprar a operação inteira, ou não."
Não havia planilha pronta. Não havia comitê. Havia um número — R$ 1,2 bilhão — e 48 horas.
No MBA te ensinam frameworks. NPV, payback, análise de cenários. Ferramentas elegantes para problemas que aceitam tempo. Mas o que você faz quando o tempo é o recurso mais escasso e a informação é, na melhor das hipóteses, parcial?
A pergunta que ninguém faz
Nos meus 18 anos liderando tecnologia em companhias de capital aberto, aprendi que decisões de alto risco não são decididas pela quantidade de informação. São decididas pela qualidade da pergunta que você consegue formular antes de decidir.
A pergunta certa naquela noite não era "vale R$ 1,2 bilhão?". Era: "o que precisa ser verdade para que essa decisão se prove certa em 36 meses?"
Quando você inverte o problema, o ruído some. Você para de tentar prever o futuro e começa a desenhar as condições que precisam acontecer para o futuro funcionar. E aí, sim, a planilha vira ferramenta — não muleta.
Três condições, não trinta
Naquela noite, listei três:
1. A stack tecnológica precisava ser absorvível em 18 meses sem reescrita. Se exigisse migração total, o custo escondido dobraria o valor da operação. 2. O time de engenharia precisava ter, no mínimo, três engenheiros sênior dispostos a ficar. Em M&A de tecnologia, o ativo são as pessoas — não o código. 3. A base de clientes precisava ter ticket médio crescente nos últimos 12 meses. Crescimento de receita por contração de churn é diferente de crescimento por aquisição cara.
Duas dessas eu consegui validar em 24 horas. A terceira, em 36. As três deram sinal verde. Recomendei o sim.
A aquisição se fechou. Em 28 meses, devolveu o investimento.
O que isso ensina
Não estou dizendo que toda decisão se reduz a três perguntas. Estou dizendo que a maturidade do executivo é diretamente proporcional à clareza com que ele formula o problema antes de buscar a resposta.
Alunos de MBA aprendem a responder. Executivos seniores aprendem a perguntar. E é essa, no fim, a única diferença que importa quando o telefone toca às 22h de uma terça.
SOBRE O AUTOR
Fábio Trentini
CTO @ CLICKBUS
Fábio Trentini é CTO da ClickBus há 6 anos e foi responsável por liderar a transformação tecnológica que escalou a operação de 2 milhões para 25 milhões de transações anuais. Antes da ClickBus, atuou como Head de Engenharia em empresas como B2W e Wine.